Imprensa

NO QUEBRA-CABEÇA DO CONTROLE BIOLÓGICO, O TAXONOMISTA É PEÇA CHAVE

Por outubro 11, 2016 junho 11th, 2019 Sem Comentários
promip manejo integrado de pragas controle biologico taxonomista

Atualmente são conhecidas cerca de 1,9 milhões de espécies animais, menos da metade das 5 milhões que estima-se existir. Existe um profissional que é diariamente desafiado a conhecer e catalogar toda esta diversidade desconhecida, um profissional que como outras milhares de espécies animais no planeta está em risco de extinção: o taxonomista!

Em matéria recente, a Folha de São Paulo enumerou como motivos que podem estar causando a escassez atual de taxonomistas o baixo poder de atração da taxonomia (considerada uma atividades “chata” por muitos estudantes) quando comparada com outras áreas mais em voga, como a genética e a evolução, além da falta de recursos para projetos que visam coletar e catalogar espécies.

No imaginário popular, o pobre taxonomista é um ser solitário, que passa dias trancado em uma sala escura, comparando e catalogando espécimes, sem nenhum contato com atividades práticas e de aplicação “real”. Para mostrar o quanto esta ideia está equivocada e como a taxonomia é uma ciência dinâmica, o melhor caminho é divulgar amplamente as contribuições de taxonomistas em cada área do conhecimento, e, neste ponto, nós que trabalhos com controle biológico somos privilegiados!

Em programas de controle biológico, o taxonomista é o responsável por identificar corretamente a praga presente na cultura para que se busque por informações sobre seus inimigos naturais, além de garantir que o predador que está sendo prospectado, introduzido ou massalmente criado é a espécie que efetivamente pode controlar a praga, e não apenas uma espécie parecida. Como muitas vezes a relação entre predador e presa ou parasitoide e hospedeiro é extremamente intima e específica, a má identificação de alguma das partes pode fadar o programa ao fracasso, causando um enorme prejuízo e/ou diminuindo a confiança dos produtores na técnica.

Muitos inimigos naturais, como é o caso dos ácaros, são difíceis de serem identificados por serem muito pequenos, exigindo preparações especiais antes de sua observação; pela existência de espécies crípticas (espécies diferentes mas que são morfologicamente idênticas) e pela ampla variação morfológica observada em um muitas espécies decorrente de fatores como clima e alimentação. Para superar estes desafios, o taxonomista estuda por anos, tornando-se capaz de dar a palavra final nos grupos em que se especializou.

Como é possível inferir do parágrafo anterior, as desafiantes atividades de identificação e descrição de novas espécies de ácaros exigem uma longa formação dos taxonomistas. Ao contrário do que ocorre com outros grupos animais, o Brasil vive, de certa maneira, uma situação confortável com relação à disponibilidade de taxonomistas especialistas em ácaros. No país temos diversos centros de pesquisa com programas de pós graduação que anualmente formam diversos profissionais. Porém, o contratempo é que a grande maioria destes pesquisadores se especializam na taxonomia de ácaros Mesostigmata, ordem na qual estão os principais grupos de ácaros predadores.

Portanto, é possível perceber que apesar de termos diversos grupos trabalhando com taxonomia de ácaros no Brasil, ainda há desafios: 1) Ampliar o conhecimento sobre a diversidade dos demais grupos de ácaros, especialmente aqueles que compreendem ácaros-praga; 2) Promover a integração entre pesquisas sobre taxonomia e biologia para que, à medida que vão sendo descritas, as novas espécies sejam também avaliadas quanto à seu potencial uso em programas de controle biológico; 3) Fortalecer a presença de taxonomistas em todos os programas de controle biológico para que a identificação das espécies envolvidas seja realizada, não apenas no início do estudo, mas periodicamente, para detectar alguma contaminação e para montar uma coleção de espécies “voucher”.

Por fim, é preciso trabalhar a importância da taxonomia desde o início da formação profissional de biólogos e agrônomos, mostrando que, ao contrário do que muitos imaginam, a taxonomia é uma ciência dinâmica e de grande importância para o desenvolvimento de outras áreas (como o citado controle biológico aqui). Além disso, mostrar que a integração entre as diferentes áreas da zoologia só contribui para o desenvolvimento da ciência como um todo, e que nenhum pesquisador, independentemente de sua área de especialidade, avança sozinho!

Para saber mais:

GRAGNANI, J. Biólogo especialista em classificar espécies está ameaçado de extinção. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 set. 2016. Disponível aqui.

1ZUCCHI, R. A. A taxonomia e o controle biológico de pragas. In: José Roberto Postali Parra; Paulo Sérgio Machado Botelho; Beatriz Spalding Corrêa-Ferreira. (Org.). Controle biológico no Brasil: parasitóides e predadores. 1 ed. São Paulo: Manole, 2002, v. 1, p. 17-27.

Deixe seu comentário

© 2018 Promip.